
Trinta anos de transformações vistos por quem acompanhou cada uma delas
Imagine voltar ao consultório onde você trabalhou no início da sua carreira e compará-lo com uma clínica odontológica atual. Logo nos primeiros minutos, você perceberia que muita coisa mudou. O ruído característico das antigas canetas de alta rotação já não domina o ambiente como antes. Em muitas clínicas, as radiografias aparecem instantaneamente na tela do computador. Moldagens que durante décadas fizeram parte da rotina estão sendo substituídas por scanners intraorais. Equipamentos digitais, planejamento em três dimensões e inteligência artificial começam a ocupar um espaço que, quando entrei na faculdade, parecia pertencer apenas aos filmes de ficção científica.
À primeira vista, é natural imaginar que essa tenha sido a maior transformação da Odontologia. Mas, para quem acompanhou essa trajetória de perto, a resposta é outra. A maior mudança não aconteceu nos equipamentos. Aconteceu na maneira de pensar.
Quando ingressei na faculdade, em 1992, vivíamos uma Odontologia muito diferente da atual. Quatro anos depois, em 1996, recebi meu diploma de cirurgiã-dentista e iniciei uma carreira que me permitiu acompanhar uma das fases mais intensas de transformação da profissão. Desde então, atuei como clínica, professora, pesquisadora e gestora de uma instituição de ensino. Em cada uma dessas funções, tive o privilégio de observar a mesma mudança sob perspectivas diferentes.
Vi procedimentos serem abandonados, materiais desaparecerem, protocolos serem atualizados e tecnologias revolucionarem a rotina clínica. Mas, acima de tudo, vi a ciência transformar a forma como tomamos decisões.
Hoje removemos menos tecido dentário, preservamos mais estruturas naturais, planejamos tratamentos com muito mais precisão e adotamos protocolos de segurança que há três décadas sequer imaginávamos. O paciente também mudou. Tornou-se mais informado, mais participativo e muito mais consciente do seu papel nas decisões sobre a própria saúde.
Quando olho para trás, percebo que tive a sorte de viver exatamente no período em que a Odontologia deixou de ser predominantemente baseada na tradição para se tornar cada vez mais guiada pelas melhores evidências científicas.
Talvez por isso este artigo não seja apenas uma retrospectiva da profissão.
É também uma viagem pelas lembranças de quem viu tudo isso acontecer.
Ao longo das próximas páginas, quero revisitar algumas das mudanças que mais marcaram esses últimos trinta anos. Não apenas para mostrar como a Odontologia evoluiu, mas para lembrar que toda essa transformação teve um único objetivo: cuidar melhor das pessoas.
Como era estudar Odontologia na década de 1990?
Quem inicia a faculdade de Odontologia hoje talvez tenha dificuldade para imaginar como era a rotina de um estudante no início da década de 1990.
Naquela época, scanners intraorais não existiam, radiografia digital era um conceito distante, tomografias computadorizadas estavam restritas a poucas situações e inteligência artificial era assunto para livros e filmes de ficção científica.
Nossa formação era essencialmente manual. Passávamos horas nos laboratórios repetindo os mesmos movimentos até que eles se tornassem naturais. Cada restauração, cada preparo cavitário e cada escultura exigiam concentração, paciência e treino. Não havia atalhos. Aprendíamos fazendo, errando e tentando novamente.
Lembro-me das aulas de Dentística, quando passávamos um tempo enorme tentando reproduzir a anatomia de um dente em uma restauração de amálgama. Conseguir um bom ponto de contato em uma Classe II era motivo de comemoração. Hoje pode parecer um detalhe, mas quem estudou naquela época certamente entende o tamanho dessa conquista.
Outra disciplina que marcou profundamente minha graduação foi Oclusão. Ainda hoje, palavras como Tripoidismo, Curva de Spee, Curva de Wilson e relação cêntrica me fazem lembrar das longas noites de estudo. Eu saía das aulas acreditando que finalmente havia entendido a matéria. Bastava abrir o livro em casa para descobrir que ainda tinha muito mais para aprender.
Meu atlas de Anatomia quase nunca saía da mesa. Passei incontáveis horas folheando aquelas páginas, tentando memorizar músculos, nervos, vasos sanguíneos e detalhes anatômicos que pareciam infinitos. Naquele momento, acreditava que, quando dominasse todo aquele conteúdo, estaria pronta para exercer a profissão.
Hoje sei que aquele foi apenas o começo. Se a faculdade me ensinou alguma coisa, foi que a Odontologia nunca permite que o aprendizado termine. A clínica também foi uma professora exigente.
Como acontece com praticamente todo profissional em formação, aprendi tanto com os acertos quanto com os erros. Fiz preparos cavitários maiores do que hoje considero necessários. Em uma ocasião, perfurei o assoalho pulpar de um molar durante um procedimento. Em outra, realizei a extração de um dente hígido porque, naquele momento, a autonomia do paciente era compreendida de maneira diferente e a Odontologia minimamente invasiva ainda estava longe de fazer parte da nossa prática cotidiana.
Durante muito tempo, essas lembranças me incomodaram. Hoje elas têm outro significado. Elas representam uma profissão que estava evoluindo.
É importante olhar para o passado com honestidade, mas também com justiça. Os profissionais daquela época trabalhavam com o conhecimento, os materiais e os recursos disponíveis naquele momento. A ciência ainda não havia respondido muitas das perguntas que hoje parecem óbvias.
Talvez essa seja uma das maiores lições que aprendi ao longo da carreira. Não somos profissionais melhores apenas porque estudamos mais do que as gerações anteriores. Somos profissionais melhores porque começamos nossa caminhada exatamente do ponto onde a geração anterior conseguiu chegar.
Cada pesquisa publicada, cada material desenvolvido e cada protocolo aperfeiçoado permitiram que os novos cirurgiões-dentistas iniciassem sua trajetória alguns passos à frente. É assim que a ciência faz uma profissão evoluir.
A Odontologia também tinha cheiro
Quando pensamos na faculdade, normalmente lembramos dos professores, das provas ou dos primeiros pacientes. Curiosamente, minhas lembranças mais vivas começam pelo olfato.
Dizem que nenhum sentido desperta tantas memórias quanto o cheiro. Talvez seja por isso que, mesmo depois de mais de três décadas, alguns aromas ainda consigam me transportar imediatamente para os corredores da faculdade.
Lembro do cheiro do Pulposan. A base de eugenol, derivado do óleo de cravo, tinha um aroma muito característico. Curiosamente, sempre gostei daquele cheiro. Bastava abrir o frasco para que eu voltasse às primeiras aulas clínicas, aos laboratórios e à ansiedade de quem estava descobrindo uma profissão completamente nova.
Também me lembro da Central de Material e Esterilização. O cheiro das embalagens em papel kraft recém-saídas da autoclave fazia parte da rotina das clínicas-escola. Naquele momento, aquilo representava organização, cuidado e biossegurança. Hoje sabemos que o papel kraft não atende aos requisitos exigidos para o processamento de produtos para saúde e foi substituído por embalagens específicas, muito mais seguras. Mais uma vez, a mudança não aconteceu porque alguém decidiu fazer diferente, mas porque a ciência mostrou que existiam alternativas melhores.
Algumas lembranças, porém, não vêm pelo cheiro, mas sim, acompanhadas da sensação de dificuldade que todo estudante conhece. Nunca vou me esquecer da confecção dos provisórios em resina acrílica. Parecia que todos conseguiam, menos eu. Errava a manipulação, perdia o tempo da resina e o acabamento nunca ficava como eu queria. Chorei algumas vezes no laboratório, convencida de que jamais dominaria aquela técnica. Hoje rio quando lembro disso. O provisório que um dia parecia impossível acabou se tornando apenas mais uma etapa da profissão. A dificuldade passou, mas o cheiro característico do monômero da resina acrílica permaneceu guardado na memória, lembrando que aprender exige tempo, repetição e persistência.
Também me recordo da tensão antes de chamar o professor para avaliar um preparo cavitário, dos pontos de suturas completamente tortos nas laranjas, da satisfação quando uma restauração finalmente ficava como esperado e da expectativa do primeiro atendimento clínico, são momentos simples, mas que permanecem vivos porque representam uma fase em que cada pequena conquista parecia enorme.
Quando olho para trás, percebo que a Odontologia daquela época podia ser reconhecida pelos sentidos. Hoje quase nada disso existe.
A radiografia digital eliminou os líquidos reveladores. Novos biomateriais substituíram produtos que fizeram parte da minha formação. As embalagens mudaram. Os equipamentos evoluíram. Os processos tornaram-se mais seguros. A Odontologia mudou, e mudou para melhor.
Gosto de revisitar essas lembranças não por nostalgia, mas porque elas ajudam a compreender o quanto a profissão evoluiu. Conhecer o caminho percorrido nos faz valorizar ainda mais as conquistas que hoje parecem naturais.
Foi justamente essa evolução que começou a transformar a forma como entendíamos a própria Odontologia. E nenhuma mudança foi tão importante quanto aquela provocada pela ciência.
Quando a ciência começou a questionar tudo o que parecia certo em Odontologia
Se eu tivesse que escolher apenas uma transformação para explicar por que a Odontologia mudou tanto nas últimas três décadas, não escolheria um equipamento, um material restaurador ou uma tecnologia digital.
Escolheria a ciência.
Quando iniciei minha graduação, grande parte das condutas clínicas era ensinada porque havia funcionado bem durante muitos anos. A experiência dos professores tinha enorme peso e não tinha questionamento. Era aquilo e pronto.
Aos poucos, porém, comecei a assistir a uma mudança silenciosa.
A pesquisa científica ganhou força, os estudos passaram a ser conduzidos com metodologias mais rigorosas e as revisões sistemáticas começaram a reunir evidências produzidas em diferentes partes do mundo. Pela primeira vez, tornou-se possível comparar tratamentos de forma mais consistente e responder perguntas que antes dependiam quase exclusivamente da experiência clínica.
Essa transformação mudou completamente a maneira como passamos a tomar decisões.
Muitas condutas tradicionais foram reavaliadas. Protocolos considerados definitivos começaram a ser atualizados e procedimentos rotineiros passaram a ser questionados à luz das melhores evidências disponíveis.
Foi nesse momento que compreendi uma das maiores lições da minha vida profissional. A ciência não existe para provar que estávamos errados. Ela existe para nos ajudar a fazer melhor.
Foi nesse contexto que iniciativas internacionais, como a Cochrane Collaboration, passaram a reunir e sintetizar as melhores evidências científicas disponíveis, fortalecendo uma Odontologia baseada não apenas na experiência clínica, mas também em revisões sistemáticas de alta qualidade.
Menos desgaste, mais preservação
Uma das mudanças mais profundas da Odontologia aconteceu justamente onde muitos pacientes nem percebem: na quantidade de estrutura dentária que deixamos de remover.
Quando iniciei minha carreira, era comum realizar preparos cavitários muito maiores do que aqueles que fazemos atualmente. Isso não acontecia por descuido ou excesso de intervenção. Os materiais restauradores disponíveis naquela época exigiam retenções mecânicas para permanecerem estáveis, e isso determinava a forma como os preparos eram executados.
Era a melhor Odontologia que conhecíamos naquele momento. Com o avanço dos sistemas adesivos e da evolução das resinas compostas, esse cenário começou a mudar. Passamos a confiar cada vez mais na adesão aos tecidos dentários e menos na retenção obtida pelo desgaste do dente. Essa mudança alterou completamente nossa filosofia de trabalho.
Hoje, sempre que possível, preservamos esmalte, dentina e até pequenas estruturas que antigamente seriam removidas sem grandes questionamentos. As cerâmicas evoluíram, os cimentos tornaram-se mais eficientes e biomateriais passaram a estimular processos naturais de reparo dos tecidos.
O objetivo deixou de ser apenas restaurar um dente e passou a ser preservar aquilo que a natureza construiu.
Essa talvez seja uma das mudanças mais bonitas que acompanhei ao longo da carreira. Não aprendemos apenas novas técnicas. Aprendemos a intervir menos e a respeitar mais a biologia.
Quando observo os alunos atendendo hoje, percebo que muitos procedimentos que executávamos na década de 1990 simplesmente não seriam indicados da mesma forma. E isso não diminui o trabalho dos profissionais daquela época. Apenas demonstra que a ciência continuou caminhando e nos ofereceu ferramentas melhores para cuidar das pessoas.
No fim das contas, quem mais ganhou com essa transformação foi o paciente, que hoje tem muito mais chances de preservar seus dentes naturais por toda a vida.
A tecnologia entrou no consultório — e mudou nossa rotina na Odontologia
Se a ciência mudou a forma de pensar, a tecnologia mudou a forma de trabalhar. Algumas mudanças aconteceram de maneira tão gradual que quase não percebemos. Outras transformaram completamente a rotina dos consultórios em poucos anos.
As radiografias são um bom exemplo. Durante muito tempo, fazíamos o exame, aguardávamos a revelação e torcíamos para que a imagem ficasse boa. Se houvesse algum problema, era necessário repetir tudo de novo. Hoje isso parece distante.
A radiografia digital tornou o diagnóstico praticamente imediato, reduziu significativamente a exposição do paciente à radiação, facilitou o armazenamento das imagens e simplificou a comunicação entre profissionais. Depois vieram as tomografias computadorizadas, que revolucionaram especialidades como Implantodontia, Cirurgia Bucomaxilofacial e Endodontia ao permitir uma visão tridimensional das estruturas anatômicas.
Os scanners intraorais começaram a substituir as moldagens convencionais, proporcionando mais conforto ao paciente e maior precisão ao tratamento. Em seguida, sistemas CAD/CAM e impressoras 3D aproximaram o planejamento digital da execução clínica, reduzindo etapas e aumentando a previsibilidade dos resultados.
Mais recentemente, a inteligência artificial passou a integrar a rotina de diversas clínicas, auxiliando na análise de imagens, no planejamento dos tratamentos e na organização de informações.
Ainda estamos apenas no início dessa transformação, mas apesar de todo esse avanço, continuo acreditando que a tecnologia nunca foi a protagonista da história, ela sempre foi uma ferramenta. Quem realmente mudou a Odontologia foi a forma como aprendemos a utilizar o conhecimento científico para oferecer tratamentos mais seguros, mais conservadores e mais previsíveis.
Tecnologia sem ciência é só equipamento moderno. Concorda? Ciência aplicada com tecnologia é aquilo que realmente transforma a vida dos pacientes.
O paciente também mudou
Nem toda transformação aconteceu dentro do consultório. Quem mudou muito nesses últimos trinta anos foi o próprio paciente. Lá atrás era comum ouvir uma frase muito simples: “Doutora, faça o que for melhor.” A confiança no profissional era enorme, mas a participação do paciente nas decisões era relativamente pequena. Poucos perguntavam sobre alternativas de tratamento ou buscavam compreender os motivos de determinada conduta.
Hoje a realidade é completamente diferente. Antes mesmo da primeira consulta, muitos pacientes pesquisam sintomas, leem artigos, assistem a vídeos, procuram avaliações na internet e chegam ao consultório trazendo perguntas bastante específicas.
Alguns profissionais enxergam isso como um desafio, eu já enxergo como uma evolução. O paciente passou a participar mais ativamente das decisões relacionadas à própria saúde. Isso nos obrigou a desenvolver uma habilidade que talvez tenha recebido pouca atenção durante a graduação: a comunicação. Explicar riscos, benefícios, limitações e alternativas deixou de ser um complemento da consulta. Passou a fazer parte do tratamento.
Ao mesmo tempo, aspectos que antes pareciam secundários ganharam enorme importância. Organização da clínica, pontualidade, acolhimento, clareza das informações e qualidade do relacionamento passaram a influenciar diretamente a percepção de valor do atendimento.
Hoje entendemos que cuidar de alguém vai muito além de restaurar dentes. É construir confiança. E confiança continua sendo algo que nenhuma tecnologia consegue substituir.
A biossegurança deixou de ser um detalhe na Odontologia
Se existe uma área que mudou profundamente ao longo desses anos, essa área foi a biossegurança.
Quando comecei a minha profissão, a preocupação principal estava concentrada na esterilização dos instrumentos e no uso dos equipamentos de proteção individual. Esses cuidados já eram fundamentais, mas a visão sobre segurança era limitada e secundária.
Com o passar dos anos, especialmente impulsionada pelo avanço da ciência e pelas experiências vividas pela própria sociedade, como a pandemia de COVID-19, a biossegurança deixou de ser um conjunto de normas e passou a representar uma cultura com muito protagonismo. Hoje falamos em gerenciamento de riscos, rastreabilidade de dispositivos médicos, validação dos processos de esterilização, monitoramento sistemático dos equipamentos, treinamento permanente das equipes e segurança do paciente. Penso que a publicação da RDC nº 1.002/2025 pela Anvisa representa bem esse momento.
Mais do que criar novas exigências, a norma consolida uma visão moderna da assistência odontológica, aproximando ainda mais a profissão dos padrões de segurança adotados em ambientes hospitalares.
Como professora e pesquisadora, acompanhei essa evolução de perto.
Por muito tempo, alguns profissionais enxergavam a biossegurança apenas como uma obrigação legal. Hoje sabemos que ela é, acima de tudo, uma demonstração de respeito. Cada protocolo seguido corretamente, cada registro realizado e cada treinamento promovido, existem, por uma razão muito simples: proteger vidas.
O consultório também virou uma empresa
Outra mudança importante aconteceu fora da cadeira odontológica. Quando me formei, muitos acreditavam que bastava ser um excelente dentista para construir uma carreira sólida. Eu também achava isso. Hoje sabemos que isso não é suficiente.
O Cirurgião-dentista moderno também precisa compreender gestão, liderança, planejamento estratégico, legislação, finanças, indicadores de desempenho, marketing, vendas e desenvolvimento de equipes.
Ao longo da minha trajetória, talvez essa tenha sido uma das maiores transformações pessoais que vivi. Percebi que empresas não crescem apenas porque têm profissionais competentes. Elas crescem quando conseguem transformar conhecimento em processos.
Essa percepção também mudou completamente a forma como passei a administrar uma instituição de ensino.
Aprendi que qualidade não depende apenas de pessoas talentosas. Depende de cultura organizacional, do ecossistema, treinamento contínuo, padronização e melhoria permanente.
É exatamente o mesmo princípio que hoje orienta a Odontologia moderna. Excelência não acontece por acaso, na verdade, ela é construída todos os dias.
Se eu pudesse conversar com a Christiane de 1992…
Às vezes imagino como seria encontrar aquela jovem que entrou na faculdade carregando um atlas de Anatomia debaixo do braço e acreditando que precisava decorar tudo para se tornar uma boa dentista.
Provavelmente eu diria para ela não ter tanta pressa. Para não se preocupar com amálgama, nem com provisório em resina acrílica.
Que um dia ela perfuraria um assoalho pulpar e levaria tempo para entender que os erros também fazem parte da formação de um profissional responsável.
Diria para aproveitar mais os professores, fazer mais perguntas e nunca perder a curiosidade. Também diria algo que ela provavelmente teria dificuldade para acreditar: a Odontologia mudaria muito mais nos trinta anos seguintes do que havia mudado nas décadas anteriores.
Mas que, apesar de toda essa transformação, o mais importante continuaria exatamente igual: o compromisso de cuidar de pessoas.
Os próximos trinta anos já começaram na Odontologia

É impossível prever exatamente como será a Odontologia nas próximas décadas. Novas tecnologias surgirão, materiais serão substituídos e a inteligência artificial ocupará um espaço cada vez maior na prática clínica.
Já começamos ver as terapias regenerativas capazes de recuperar tecidos considerados irrecuperáveis. Talvez a impressão tridimensional e a engenharia tecidual transformem tratamentos que atualmente parecem complexos em procedimentos rotineiros.
Mas existe uma previsão que faço com bastante segurança. A ciência continuará mudando a profissão. Ela continuará questionando verdades estabelecidas, aperfeiçoando protocolos e oferecendo respostas melhores para perguntas antigas.
E isso é bom, traz uma certa angústia, mas é bom… porque a maior virtude da ciência nunca foi ter todas as respostas, foi ter coragem de continuar fazendo perguntas.
Então, por isso, depois de tantos, sigo estudando, pesquisando e aprendendo. Quanto mais conheço a área, mais percebo que ainda existe muito para descobrir. Talvez essa seja a maior beleza da Odontologia. Ela nunca termina. Está sempre evoluindo.
Quando olho para trás, sinto gratidão por ter acompanhado essa transformação. Quando olho para a frente, sinto entusiasmo por imaginar o que ainda está por vir. A Odontologia que conheci em 1996, realmente, não existe mais.
E, sinceramente, espero que daqui a trinta anos possamos dizer exatamente a mesma coisa sobre a Odontologia que conhecemos hoje. Porque isso significará que continuamos aprendendo, evoluindo e oferecendo aos nossos pacientes aquilo que sempre deveria ser o nosso maior objetivo: um cuidado cada vez mais humano, mais seguro e fundamentado nas melhores evidências científicas.
Referencias
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Frencken JE, Peters MC, Manton DJ, et al.Minimal intervention dentistry for managing dental caries – a review: Report of a FDI task group.International Dental Journal. 2012;62(5):223-243. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0020653920333566
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Assessing the risk of bias in randomized controlled trials in the field of dentistry indexed in the Lilacs (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) database. Ferreira et al 2011. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21603785/
Sobre a autora
Profa. Christiane Alves é Cirurgiã-dentista, doutora e pós-doutora pela UNIFESP, Mestre em Economia, Especialista em Saúde Coletiva e Diretora da Estação Ensino. Há mais de três décadas dedica-se à assistência, ao ensino e à pesquisa, promovendo uma Odontologia fundamentada em evidências científicas e na formação de profissionais da saúde.
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